Documentário da TV Camâra sobre a vida e obra de Rachel de Queiroz, uma das mais importantes escritoras brasileiras. Nascida em Fortaleza, Ceará, em 1910, Rachel teve uma infância marcada por mudanças frequentes devido às secas que assolavam o Nordeste. Sua família migrou para o Rio de Janeiro e depois para o Pará, antes de retornar ao Ceará. Rachel cresceu em um ambiente intelectual, cercada por livros e influências literárias, o que a levou a começar a escrever ainda jovem. Seu primeiro romance, “O Quinze”, publicado em 1930, retrata a seca de 1915 e foi um marco em sua carreira, consolidando-a como uma das vozes mais importantes da literatura brasileira.
Rachel de Queiroz teve uma trajetória literária e política marcante. Além de escritora, ela foi jornalista e se envolveu com movimentos políticos, inicialmente como comunista, mas depois se afastou do Partido Comunista, tornando-se trotskista. Ela criticava a rigidez ideológica do partido e defendia uma visão mais ampla e crítica. Sua obra literária é profundamente engajada, refletindo as questões sociais e políticas do Brasil, especialmente as relacionadas ao Nordeste. Rachel foi a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras, em 1977, um feito que destacou sua importância no cenário literário nacional.
A escritora também teve uma relação próxima com outras figuras importantes da literatura brasileira, como Graciliano Ramos, José Lins do Rego e José Olympio, seu editor por muitos anos. Rachel descreve essas amizades como fundamentais em sua vida e carreira, destacando a camaradagem e o apoio mútuo entre os escritores da época. Ela também menciona sua relação com o regime militar, especialmente com o general Castelo Branco, com quem mantinha uma amizade antiga, mas ressalta que nunca buscou vantagens pessoais ou políticas com esses contatos.
Rachel de Queiroz foi uma mulher à frente de seu tempo, que não se deixou limitar por convenções de gênero. Ela relata que nunca enfrentou grandes dificuldades por ser mulher no meio literário, sendo, ao contrário, bastante valorizada e apoiada por seus colegas homens. Sua condição feminina, segundo ela, nunca foi um obstáculo, mas sim uma vantagem, pois era frequentemente “paparicada” e incentivada por outros escritores. Rachel também foi uma das primeiras mulheres a ganhar destaque no jornalismo, colaborando com diversos periódicos ao longo de sua carreira.
Além de sua carreira literária, Rachel de Queiroz tinha um forte vínculo com o Nordeste e sua cultura. Seu romance “Memorial de Maria Moura”, publicado em 1992, retrata a tradição feminina no sertão e foi adaptado para a televisão, embora a autora não tenha ficado satisfeita com a versão televisiva. Rachel também tinha uma relação próxima com o Padre Cícero, figura emblemática do Nordeste, a quem considerava um amigo e mentor. Ela descreve o Padre Cícero como uma pessoa culta e caridosa, que tinha grande influência política e social na região.
Rachel de Queiroz era uma pessoa de fortes convicções e opiniões, mas também demonstrava uma visão crítica sobre a vida e a sociedade. Ela confessa que nunca gostou muito de escrever, apesar de ter feito disso sua carreira. Para ela, escrever era uma necessidade íntima, quase uma imposição, e não um prazer. Rachel também reflete sobre a velhice, descrevendo-a como um período difícil, mas que traz certa serenidade e aceitação da finitude da vida. Ela admite não ter fé religiosa, o que considera uma falta em sua personalidade, mas mantém um respeito profundo pelas tradições religiosas e pelas pessoas que a cercaram.
Por fim, Rachel de Queiroz deixa um legado literário e cultural de grande importância para o Brasil. Sua obra, marcada por uma profunda conexão com o Nordeste e suas questões sociais, continua a ser relevante e estudada. Ela foi uma mulher que desafiou convenções, participou ativamente da vida política e cultural do país e deixou uma marca indelével na literatura brasileira. Rachel faleceu em 2003, mas sua voz e suas histórias permanecem vivas, inspirando novas gerações de leitores e escritores.